Meninas vamos ao vira - 05/10/2018

Meninas

Traduction de Trains en portugais par Alberto Augusto Miranda.

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- Comboios - 

A paisagem desfila como um Jackson Pollock, vacas en pontilhismo, nuvens alongadas, manchas girassóis e carris deformados. A janela fria cola-se-me no nariz e oiço a agitação do animal humano.

Pouca terra, pouca terra.

Não sou Eva Marie Saint, não estou A Intriga Internacional nem recebo os beijos de Cary Grant. Para lá do vidro, paisagens de postal, sinos de entre-guerras, impressões ferroviárias: uma vaca, um castelo, uma igreja, um burro, uma velha motoreta ou um comboio a vapor, ervas infinitas, campos de papoilas, aldeias suspensas, a autoestrada fantasma, ovelhas, talvez cabras, outra papoila, uma saia em corola, uma lata, uma bolsa de plástico, uma lâmpada de néon, um flash.

Pouca terra, pouca terra.

Não sou Celia Johnson no Breve Encontro esperando a próxima quinta-feira, a próxima quinta-feira, a próxima quinta-feira, o amor proibido num café. Por trás do vidro, amargas paisagens que se repetem e desfilam e voltam a passar e giram e recomeçam e as vacas são semelhantes e a neve oculta os passos de lobos, ogres e bruxas.

Pouca terra, pouca terra.

Não sou Marilyn Monroe em Quanto Mais Quente Melhor. Diante dos meus olhos imensos pastos, pedras e ervas daninhas que cornos estupefactos ruminam, metodicamente.

Pouca terra, pouca terra.

Desfilam os quilómetros, o Norte ainda distante.

Cento e cinco vírgula oito, chegaremos amanhã.